Constantinopla II (553): Cristologia Pós-Calcedônia
O Concílio de Constantinopla II, convocado em 553 d.C. pelo imperador Justiniano I, foi o quinto concílio ecumênico da Igreja Cristã. Sua principal tarefa foi reafirmar e clarificar a Definição Calcedoniana (451 d.C.) sobre as duas naturezas de Cristo, buscando reconciliar as facções cristológicas que persistiam, especialmente as miafisitas (que rejeitavam Calcedônia) e as tendências nestorianas que ainda se manifestavam. O concílio condenou os “Três Capítulos” – escritos de Teodoro de Mopsuéstia, Teodoreto de Ciro e Ibas de Edessa – que eram vistos como tendo inclinações nestorianas, e reafirmou a unidade da pessoa de Cristo e a integridade de Suas duas naturezas.
Este artigo explora o contexto pós-Calcedônia, as persistentes controvérsias cristológicas, o papel do imperador Justiniano I, a condenação dos Três Capítulos e as implicações duradouras desse concílio para a cristologia e a unidade da Igreja. Ele se conecta diretamente aos estudos “Doutrina da Trindade: por que é essencial”, “Desenvolvimento histórico da doutrina da Trindade” e “Calcedônia (451): Duas Naturezas em Cristo”.
1. O Cenário Pós-Calcedônia: A Busca por Unidade
1.1. O Legado de Calcedônia e as Divisões
A Definição Calcedoniana (451 d.C.) estabeleceu que Cristo é uma única pessoa em duas naturezas, divina e humana, “sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação”. No entanto, essa definição não trouxe a paz esperada. As igrejas miafisitas (como as coptas, sírias e armênias) rejeitaram Calcedônia, interpretando-a como uma divisão de Cristo em duas pessoas (nestorianismo) ou como uma negação da unidade de Sua natureza divino-humana. Elas defendiam uma “única natureza unida” (mia physis), onde a divindade e a humanidade se uniam sem se confundir, mas sem serem separadas em duas naturezas distintas.
1.2. O Papel do Imperador Justiniano I
O imperador Justiniano I (527-565 d.C.) era um fervoroso defensor da ortodoxia calcedoniana e da unidade do Império. Ele via as divisões religiosas como uma ameaça à estabilidade política. Buscando reconciliar os miafisitas com a Igreja Imperial, Justiniano acreditava que a raiz da discórdia estava em certas interpretações que pareciam favorecer o nestorianismo, mesmo após a condenação de Nestório em Éfeso (431 d.C.).
1.3. A Controvérsia dos Três Capítulos
Para apaziguar os miafisitas e reforçar a ortodoxia calcedoniana, Justiniano emitiu um edito em 543/544 d.C. condenando os “Três Capítulos”. Estes eram:
- A pessoa e os escritos de Teodoro de Mopsuéstia: Um teólogo antioqueno que foi um dos mestres de Nestório e cujas obras eram consideradas a fonte do nestorianismo.
- Os escritos de Teodoreto de Ciro: Especialmente seus ataques a Cirilo de Alexandria e sua defesa de Nestório.
- A carta de Ibas de Edessa a Maris, o Persa: Uma carta que elogiava Teodoro de Mopsuéstia e criticava Cirilo de Alexandria.
A condenação dos Três Capítulos visava mostrar aos miafisitas que a Igreja Imperial estava comprometida com a teologia de Cirilo de Alexandria e com a unidade da pessoa de Cristo, combatendo qualquer resquício de nestorianismo.
2. O Concílio de Constantinopla II (553 d.C.): A Condenação dos Três Capítulos
2.1. A Convocação e o Conflito com o Papa Vigílio
Justiniano convocou o concílio em Constantinopla. O Papa Vigílio, inicialmente, resistiu à condenação dos Três Capítulos, temendo que isso pudesse minar a autoridade de Calcedônia e alienar os bispos ocidentais. Ele foi levado à força para Constantinopla e, sob pressão imperial, acabou cedendo e condenando os Três Capítulos, embora com hesitação e após várias mudanças de posição.
2.2. As Decisões do Concílio
O concílio, sob forte influência imperial, condenou formalmente os Três Capítulos. As principais decisões incluíram:
- Condenação de Teodoro de Mopsuéstia: Sua pessoa e seus escritos foram anatemizados.
- Condenação dos escritos de Teodoreto de Ciro e Ibas de Edessa: Aqueles que defendiam Nestório e criticavam Cirilo.
- Reafirmação da Definição Calcedoniana: O concílio deixou claro que a condenação dos Três Capítulos não era uma negação de Calcedônia, mas uma interpretação e um reforço dela, visando purificá-la de qualquer leitura nestoriana.
- Ênfase na Unidade Hipostática: O concílio reforçou a doutrina da unidade hipostática, afirmando que em Cristo há uma única pessoa (hypostasis, ὑπόστασις, ver Strong G5287) do Verbo encarnado, e que as duas naturezas (divina e humana) coexistem nessa única pessoa sem confusão ou separação.
2.3. A Cristologia Pós-Calcedônia
Constantinopla II solidificou a compreensão de que a unidade de Cristo reside em Sua pessoa (hipóstase), e não em Suas naturezas (physis, φύσις, ver Léxico Grego). A pessoa do Verbo é o sujeito de todas as ações e experiências de Cristo, tanto divinas quanto humanas. Isso significa que:
- O Verbo divino nasceu, sofreu e morreu na carne.
- A communicatio idiomatum (comunicação de propriedades) é plenamente aplicada, onde as propriedades de cada natureza são atribuídas à única pessoa de Cristo.
3. Implicações Teológicas e para a Unidade da Igreja
3.1. Reforço da Ortodoxia Calcedoniana
Constantinopla II serviu para clarificar e reforçar a Definição Calcedoniana, mostrando que ela era consistente com a teologia de Cirilo de Alexandria e com a condenação do nestorianismo. O concílio buscou demonstrar que Calcedônia não era pró-nestoriana, como alguns miafisitas alegavam.
3.2. Relação entre Cristologia e Soteriologia na Recepção do Concílio
A ênfase na unidade hipostática de Cristo é crucial para a soteriologia. Se Cristo não fosse uma única pessoa divino-humana, Sua obra redentora seria comprometida. A condenação dos Três Capítulos visava proteger a integridade da encarnação e, consequentemente, a eficácia da salvação. A salvação é obra do próprio Deus que se fez homem (João 1.14), e a plenitude da divindade habita corporalmente n’Ele (Colossenses 2.9). Ele é o único mediador entre Deus e os homens (1 Timóteo 2.5).
3.3. O Preço da Unidade: Novas Divisões
Apesar das intenções de Justiniano, o concílio não conseguiu a reconciliação com os miafisitas. Pelo contrário, a condenação dos Três Capítulos causou novas divisões no Ocidente, com algumas igrejas se separando de Roma por um tempo (o Cisma dos Três Capítulos), pois viam a condenação como um ataque à autoridade de Calcedônia.
4. Desdobramentos Pós-Constantinopla II
Constantinopla II marcou o fim de uma era de grandes debates cristológicos sobre a relação entre as naturezas divina e humana de Cristo. Embora não tenha resolvido todas as divisões, ele consolidou a interpretação calcedoniana e ciriliana da pessoa de Cristo.
As controvérsias cristológicas continuariam, mas se deslocariam para a questão de como as duas naturezas de Cristo agiam e queriam. Isso levaria ao surgimento do monotelismo (uma única vontade em Cristo) e do monoenergismo (uma única energia em Cristo), que seriam abordados no Concílio de Constantinopla III (680-681 d.C.).
Síntese teológica bíblica: Constantinopla II (553)
- O Concílio de Constantinopla II (553 d.C.) foi convocado pelo imperador Justiniano I para reafirmar a Definição Calcedoniana e buscar a reconciliação com os miafisitas.
- O concílio condenou os “Três Capítulos” – escritos de Teodoro de Mopsuéstia, Teodoreto de Ciro e Ibas de Edessa – que eram vistos como tendo inclinações nestorianas.
- A condenação visava purificar a interpretação de Calcedônia de qualquer resquício nestoriano e enfatizar a unidade da pessoa de Cristo.
- O concílio reforçou a doutrina da unidade hipostática, afirmando que em Cristo há uma única pessoa (hypostasis) do Verbo encarnado, e que as duas naturezas (divina e humana) coexistem nessa única pessoa sem confusão ou separação.
- Constantinopla II consolidou a cristologia calcedoniana, protegendo a integridade da encarnação e a eficácia da salvação, embora tenha gerado novas tensões no Ocidente.
Perguntas frequentes
Qual foi o principal objetivo do Concílio de Constantinopla II?
O principal objetivo foi reafirmar e clarificar a Definição Calcedoniana, condenando os “Três Capítulos” que eram vistos como tendo inclinações nestorianas. O concílio buscou proteger a unidade da pessoa de Cristo e reconciliar as facções cristológicas.
O que eram os ‘Três Capítulos’ condenados em Constantinopla II?
Os Três Capítulos eram os escritos de Teodoro de Mopsuéstia, certos escritos de Teodoreto de Ciro e a carta de Ibas de Edessa. Eles foram condenados por serem considerados promotores de uma cristologia que separava as naturezas de Cristo, similar ao nestorianismo.
Como Constantinopla II reforçou a Definição Calcedoniana?
Ele reforçou Calcedônia ao interpretá-la de uma forma que enfatizava a unidade da pessoa de Cristo e a integridade de Suas duas naturezas, combatendo qualquer leitura que pudesse sugerir uma divisão em Cristo. A condenação dos Três Capítulos serviu para purificar a ortodoxia.
O que é a unidade hipostática?
A unidade hipostática é a doutrina que afirma que as duas naturezas de Cristo – divina e humana – estão unidas em uma única pessoa (hypostasis). Isso significa que Cristo não é duas pessoas, mas uma única pessoa que possui plenamente ambas as naturezas, sem que elas se confundam ou se separem.
Qual o legado do Concílio de Constantinopla II para a Igreja hoje?
O legado de Constantinopla II é a consolidação da cristologia calcedoniana, que é a base da compreensão da pessoa de Cristo para a maioria das igrejas cristãs. Ele protege a verdade de que Cristo é o Deus-homem, o único mediador e salvador, e reafirma a integridade da encarnação.
Materiais recomendados para aprofundar o estudo
1. Espiral hermenêutica – Grant R. Osborne
Essencial para entender como a Igreja, ao longo da história, interpretou as Escrituras para formular doutrinas como a unidade da pessoa de Cristo. Ajuda a ver a conexão entre a exegese bíblica e as decisões conciliares.
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2. História do cristianismo – Bruce Shelley
Oferece um panorama acessível e detalhado do contexto histórico do Concílio de Constantinopla II, as controvérsias cristológicas pós-Calcedônia e o papel do imperador Justiniano. Fundamental para contextualizar a decisão de 553 d.C.
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3. Teologia Sistemática – Wayne Grudem
Contém um capítulo robusto sobre a doutrina de Cristo (Cristologia), abordando a encarnação, a união das duas naturezas e a importância dos concílios ecumênicos para a teologia cristã. Uma referência padrão para o estudo sistemático.
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4. Em seus passos o que faria Jesus? – Charles M. Sheldon
Embora não trate diretamente de Constantinopla II, este clássico devocional nos lembra que a doutrina da pessoa de Cristo, defendida nos concílios, é a base para uma vida de discipulado e obediência. A fé em um Cristo plenamente Deus e plenamente homem impacta cada decisão.
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Bibliografia sugerida
- GONZÁLEZ, Justo L. História do Pensamento Cristão. Vol. 1.
- KELLY, J. N. D. Doutrinas Centrais da Fé Cristã.
- PELIKAN, Jaroslav. The Christian Tradition: A History of the Development of Doctrine. Vol. 1.
- AYRES, Lewis. Nicaea and Its Legacy: An Approach to Fourth-Century Trinitarian Theology.
- JUSTINIANO I. Os Três Capítulos.















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