# Constantinopla III (680): As Duas Vontades de Cristo

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- Published: 2026-05-25T21:21:41-03:00
- Author: Heitor Souza

O Concílio de Constantinopla III, convocado em 680 d.C. pelo imperador Constantino
IV, foi o sexto concílio ecumênico da Igreja Cristã. Sua principal tarefa foi resolver
a controvérsia monotelita, que, na tentativa de unificar as naturezas de Cristo,
afirmava que Ele possuía apenas uma vontade (divina), negando a existência de uma
vontade humana plena. O concílio condenou o monotelismo e o monoenergismo, reafirmando
a doutrina das duas vontades de Cristo – uma divina e uma humana – operando em perfeita
harmonia dentro de Sua única pessoa. Essa decisão foi crucial para proteger a integridade
da encarnação e a plena humanidade de Cristo, essencial para Sua obediência e para
a nossa salvação.

Este artigo explora o contexto pós-Calcedônia e Constantinopla II, a ascensão do
monotelismo, o papel de Máximo o Confessor, a condenação da heresia e as implicações
duradouras dessa doutrina para a cristologia e a soteriologia. Ele se conecta diretamente
aos estudos “Doutrina da Trindade: por que é essencial”, “Desenvolvimento histórico
da doutrina da Trindade” e “Calcedônia (451): Duas Naturezas em Cristo”.

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## Principais Aprendizados

 1. **Contexto Pós-Calcedônia:** Após Calcedônia (451 d.C.) e Constantinopla II (553
    d.C.) definirem as duas naturezas em uma única pessoa de Cristo, a controvérsia
    se deslocou para a questão de Suas operações e vontades.
 2. **Monotelismo e Monoenergismo:** Heresias que, buscando a unidade, afirmavam que
    Cristo tinha apenas uma energia (monoenergismo) ou uma vontade (monotelismo), comprometendo
    Sua plena humanidade.
 3. **Máximo o Confessor:** Foi o principal defensor da ortodoxia, argumentando que,
    se Cristo tinha duas naturezas, Ele deveria ter também duas vontades (divina e 
    humana), operando em harmonia.
 4. **Condenação:** O Concílio de Constantinopla III (680-681 d.C.) condenou o monotelismo
    e o monoenergismo, afirmando o **diotelismo** – a doutrina das duas vontades de
    Cristo.
 5. **Implicações:** A doutrina das duas vontades protege a plena humanidade de Cristo,
    Sua obediência voluntária ao Pai e a eficácia de Sua obra redentora, garantindo
    que Ele nos redimiu como um homem completo.

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## 1. O Cenário Pós-Concílios Anteriores: A Questão das Operações de Cristo

### 1.1. O Legado de Calcedônia e Constantinopla II

Os concílios de Calcedônia (451 d.C.) e Constantinopla II (553 d.C.) estabeleceram
a doutrina das duas naturezas de Cristo (divina e humana) unidas em uma única pessoa(
_hypostasis_, ὑπόστασις, ver [Strong G5287](https://www.blueletterbible.org/lexicon/g5287/tr/)),
sem confusão ou separação. No entanto, a questão de como essas duas naturezas operavam
e se manifestavam na única pessoa de Cristo ainda precisava ser resolvida.

### 1.2. A Busca por Unidade e o Surgimento do Monoenergismo

No século VII, o Império Bizantino enfrentava ameaças externas (persas e árabes)
e divisões internas, especialmente com as igrejas miafisitas (não-calcedonianas).
Buscando uma fórmula que pudesse reconciliar os miafisitas com a Igreja Imperial,
o imperador Heráclio e o patriarca Sérgio de Constantinopla propuseram a doutrina
do **monoenergismo**, que afirmava que Cristo possuía uma única energia (ἐνέργεια,
_energeia_, ver [Léxico Grego](https://www.perseus.tufts.edu/hopper/morph?l=e%29ne%2Frgeia&la=greek))
ou operação divino-humana. A ideia era que, se houvesse uma única energia, isso 
implicaria uma unidade de ação que poderia ser aceitável para os miafisitas.

### 1.3. A Evolução para o Monotelismo

O monoenergismo logo evoluiu para o **monotelismo** (do grego μόνος, _monos_, “único”,
e θέλημα, _thelema_, ver [Léxico Grego](https://www.perseus.tufts.edu/hopper/morph?l=qe%2Flema&la=greek),“
vontade”). Esta doutrina afirmava que Cristo possuía apenas uma vontade, a divina.
Acreditava-se que, se houvesse duas vontades, isso implicaria duas pessoas ou uma
divisão interna em Cristo, o que seria inconsistente com a unidade de Sua pessoa.

Os monotelitas argumentavam que, se Cristo tivesse uma vontade humana, ela poderia
ser contrária à Sua vontade divina, o que seria impensável para o Filho de Deus.
Eles viam a vontade humana como um potencial para o pecado, e, portanto, Cristo 
não poderia ter uma vontade humana plena.

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## 2. A Reação Ortodoxa e o Concílio de Constantinopla III (680-681 d.C.)

### 2.1. Máximo o Confessor: O Defensor da Ortodoxia

O principal opositor do monotelismo foi **Máximo o Confessor**. Ele argumentou vigorosamente
que, se Cristo possuía duas naturezas completas (divina e humana), então Ele deveria
possuir também as propriedades essenciais de cada natureza, incluindo duas vontades(
divina e humana) e duas energias (divina e humana).

Máximo insistia que a vontade é uma propriedade da natureza, não da pessoa. Se Cristo
tivesse apenas uma vontade divina, Sua humanidade seria incompleta e imperfeita,
e Ele não seria verdadeiramente homem. A vontade humana de Cristo, embora distinta
da divina, estava em perfeita harmonia e submissão à vontade divina, sem ser absorvida
ou anulada. Ele citava passagens como a oração de Jesus no Getsêmani ([Mateus 26.39](https://www.bibliaonline.com.br/ara/mt/26/39)):“
Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres”, como evidência de uma vontade
humana distinta, mas submissa.

Máximo sofreu perseguição, tortura e exílio por sua defesa da ortodoxia, mas sua
teologia foi fundamental para a condenação do monotelismo.

### 2.2. O Tomo de Agatão e a Convocação do Concílio

O Papa Agatão, em Roma, também se opôs ao monotelismo. Ele enviou uma carta ao imperador
Constantino IV, conhecida como o **Tomo de Agatão**, que articulava a doutrina das
duas vontades de Cristo. O imperador, buscando a paz religiosa, convocou o concílio
em Constantinopla.

### 2.3. As Decisões do Concílio

O Concílio de Constantinopla III, que durou de 680 a 681 d.C., condenou formalmente
o monotelismo e o monoenergismo. O concílio afirmou o **diotelismo** (do grego δίς,
_dis_, “duas”, e θέλημα, _thelema_, “vontade”) – a doutrina das duas vontades de
Cristo.

A definição do concílio declarou:

> “E nós, da mesma forma, proclamamos, de acordo com os ensinamentos dos santos 
> Padres, que n’Ele [Cristo] há duas vontades naturais e duas energias naturais,
> sem divisão, sem mudança, sem separação, sem confusão, e que as duas vontades 
> naturais não são contrárias, como os ímpios hereges afirmaram, mas que Sua vontade
> humana segue e não resiste ou se opõe, mas sim se submete à Sua vontade divina
> e onipotente.”

O concílio também condenou retroativamente figuras proeminentes que haviam apoiado
o monotelismo, incluindo o Papa Honório I, por sua ambiguidade e falha em combater
a heresia.

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## 3. Implicações Teológicas e Soteriológicas

### 3.1. Proteção da Plena Humanidade de Cristo

A afirmação das duas vontades de Cristo foi crucial para proteger a integridade 
de Sua plena humanidade. Se Cristo tivesse apenas uma vontade divina, Sua humanidade
seria incompleta, um mero instrumento da divindade, e não uma humanidade real e 
completa. A vontade é uma faculdade essencial da natureza racional, e sem uma vontade
humana, Cristo não seria verdadeiramente homem.

### 3.2. Implicações Soteriológicas: A Obediência de Cristo

A doutrina das duas vontades é fundamental para a soteriologia (doutrina da salvação):

 * **Obediência Voluntária:** A salvação depende da obediência voluntária de Cristo
   ao Pai. Se Ele tivesse apenas uma vontade divina, Sua obediência não seria um
   ato de vontade humana livre e sacrificial, mas uma necessidade divina. A vontade
   humana de Cristo, submetida à divina, torna Sua obediência um exemplo e um ato
   redentor genuíno.
 * **Identificação com a Humanidade:** Cristo, ao ter uma vontade humana, pôde verdadeiramente
   se identificar com a humanidade em sua luta contra o pecado e na submissão à 
   vontade de Deus. Ele experimentou a tentação e a angústia humana, mas sem pecar(
   [Hebreus 4.15](https://www.bibliaonline.com.br/ara/hb/4/15)).
 * **Redenção Completa:** A redenção é completa porque Cristo redimiu a humanidade
   em sua totalidade, incluindo a vontade humana.

### 3.3. A Unidade da Pessoa (Prosopon)

O concílio reafirmou a unidade da pessoa (_prosopon_, πρόσωπον, ver [Léxico Grego](https://www.perseus.tufts.edu/hopper/morph?l=pro%2Fswpon&la=greek))
de Cristo, enfatizando que as duas vontades e energias operam em perfeita harmonia
dentro dessa única pessoa. A vontade humana de Cristo não era autônoma ou oposta
à divina, mas estava em perfeita submissão e cooperação, como evidenciado em Sua
vida e ministério ([João 1.14](https://www.bibliaonline.com.br/ara/jo/1/14); [Filipenses 2.6-7](https://www.bibliaonline.com.br/ara/fp/2/6-7)).

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## 4. Desdobramentos Pós-Constantinopla III

O Concílio de Constantinopla III marcou o fim das grandes controvérsias cristológicas
sobre a natureza e as operações de Cristo. A doutrina das duas vontades e duas energias
de Cristo tornou-se parte integrante da ortodoxia cristã, consolidando a compreensão
da pessoa de Cristo como plenamente Deus e plenamente homem, com todas as faculdades
inerentes a cada natureza.

Embora o monotelismo tenha sido condenado, algumas comunidades isoladas persistiram,
como os maronitas, que eventualmente se reconciliariam com Roma. A decisão do concílio
reforçou a importância de proteger a integridade da encarnação em todos os seus 
aspectos, garantindo que o Cristo que nos salva é um Salvador completo e perfeito.

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## Síntese teológica bíblica: Constantinopla III (680)

 1. O Concílio de Constantinopla III (680-681 d.C.) foi convocado para resolver a controvérsia
    monotelita, que afirmava que Cristo possuía apenas uma vontade (divina), negando
    Sua vontade humana.
 2. O monotelismo e o monoenergismo surgiram na tentativa de unificar as naturezas 
    de Cristo, mas comprometiam Sua plena humanidade.
 3. Máximo o Confessor foi o principal defensor da ortodoxia, argumentando que, se 
    Cristo tinha duas naturezas completas, Ele deveria ter também duas vontades (divina
    e humana), operando em harmonia.
 4. O concílio condenou o monotelismo e o monoenergismo, afirmando o **diotelismo**–
    a doutrina das duas vontades de Cristo, que são distintas, mas operam em perfeita
    submissão e cooperação.
 5. A doutrina das duas vontades protege a plena humanidade de Cristo, Sua obediência
    voluntária ao Pai e a eficácia de Sua obra redentora, garantindo que Ele nos redimiu
    como um homem completo.

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## Perguntas frequentes

**Qual foi o principal objetivo do Concílio de Constantinopla III?**
O principal
objetivo foi resolver a controvérsia monotelita, que afirmava que Cristo possuía
apenas uma vontade (a divina), negando Sua vontade humana. O concílio buscou proteger
a plena humanidade de Cristo e a integridade da encarnação.

**O que é monotelismo e por que foi condenado?**
Monotelismo é a doutrina que ensina
que Jesus Cristo tinha apenas uma vontade (a divina), e não uma vontade humana. 
Foi condenado porque, ao negar a vontade humana de Cristo, comprometia Sua plena
humanidade, tornando-o um homem incompleto e, consequentemente, afetando a eficácia
de Sua obediência e obra redentora.

**O que significa dizer que Cristo tem ‘duas vontades’?**
Significa que Jesus Cristo
possui uma vontade divina plena (inerente à Sua natureza divina) e uma vontade humana
plena (inerente à Sua natureza humana). Essas duas vontades operam em perfeita harmonia
e submissão, com a vontade humana de Cristo sempre alinhada e obediente à Sua vontade
divina, sem ser anulada ou absorvida.

**Qual o papel de Máximo o Confessor nesta controvérsia?**
Máximo o Confessor foi
o principal teólogo a defender a doutrina das duas vontades de Cristo. Ele argumentou
que a vontade é uma propriedade da natureza, e não da pessoa, e que a negação da
vontade humana de Cristo implicaria uma humanidade incompleta. Sua defesa foi crucial
para a condenação do monotelismo.

**Qual o legado do Concílio de Constantinopla III para a Igreja hoje?**
O legado
de Constantinopla III é a consolidação da cristologia ortodoxa, que afirma a plena
humanidade de Cristo, incluindo Sua vontade humana. Isso garante que a obediência
de Cristo foi um ato genuíno de um homem completo, essencial para a nossa salvação
e para o nosso exemplo de discipulado.

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## Materiais recomendados para aprofundar o estudo

**1. Espiral hermenêutica – Grant R. Osborne**
Essencial para entender como a Igreja,
ao longo da história, interpretou as Escrituras para formular doutrinas como a das
duas vontades de Cristo. Ajuda a ver a conexão entre a exegese bíblica e as decisões
conciliares.[Amazon](https://amzn.to/3Rzygpo) · [Mercado Livre](https://meli.la/2awgN1h)

**2. História do cristianismo – Bruce Shelley**
Oferece um panorama acessível e 
detalhado do contexto histórico do Concílio de Constantinopla III, as controvérsias
monotelitas e o papel de Máximo o Confessor. Fundamental para contextualizar a decisão
de 680-681 d.C.[Amazon](https://amzn.to/3Q21nRS) · [Mercado Livre](https://meli.la/1BKgi4F)

**3. Teologia Sistemática – Wayne Grudem**
Contém um capítulo robusto sobre a doutrina
de Cristo (Cristologia), abordando a encarnação, a união das duas naturezas e a 
importância dos concílios ecumênicos para a teologia cristã. Uma referência padrão
para o estudo sistemático.[Amazon](https://app.innerai.com/SEU_LINK_AMAZON_AQUI)·
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**4. Em seus passos o que faria Jesus? – Charles M. Sheldon**
Embora não trate diretamente
de Constantinopla III, este clássico devocional nos lembra que a doutrina da pessoa
de Cristo, defendida nos concílios, é a base para uma vida de discipulado e obediência.
A fé em um Cristo plenamente Deus e plenamente homem impacta cada decisão.[Amazon](https://amzn.to/3S3A9L7)·
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## Bibliografia sugerida

 * GONZÁLEZ, Justo L. _História do Pensamento Cristão_. Vol. 1.
 * KELLY, J. N. D. _Doutrinas Centrais da Fé Cristã_.
 * MÁXIMO O CONFESSOR. _Ambigua_.
 * PELIKAN, Jaroslav. _The Christian Tradition: A History of the Development of 
   Doctrine_. Vol. 1.
 * AYRES, Lewis. _Nicaea and Its Legacy: An Approach to Fourth-Century Trinitarian
   Theology_.
