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title: "Constantinopla III (680): As Duas Vontades de Cristo"
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date: 2026-05-25
modified: 2026-06-04
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author: "Heitor Souza"
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# Constantinopla III (680): As Duas Vontades de Cristo

O Concílio de Constantinopla III, convocado em 680 d.C. pelo imperador Constantino IV, foi o sexto concílio ecumênico da Igreja Cristã. Sua principal tarefa foi resolver a controvérsia monotelita, que, na tentativa de unificar as naturezas de Cristo, afirmava que Ele possuía apenas uma vontade (divina), negando a existência de uma vontade humana plena. O concílio condenou o monotelismo e o monoenergismo, reafirmando a doutrina das duas vontades de Cristo – uma divina e uma humana – operando em perfeita harmonia dentro de Sua única pessoa. Essa decisão foi crucial para proteger a integridade da encarnação e a plena humanidade de Cristo, essencial para Sua obediência e para a nossa salvação.

Este artigo explora o contexto pós-Calcedônia e Constantinopla II, a ascensão do monotelismo, o papel de Máximo o Confessor, a condenação da heresia e as implicações duradouras dessa doutrina para a cristologia e a soteriologia. Ele se conecta diretamente aos estudos “Doutrina da Trindade: por que é essencial”, “Desenvolvimento histórico da doutrina da Trindade” e “Calcedônia (451): Duas Naturezas em Cristo”.

## Principais Aprendizados

- **Contexto Pós-Calcedônia:** Após Calcedônia (451 d.C.) e Constantinopla II (553 d.C.) definirem as duas naturezas em uma única pessoa de Cristo, a controvérsia se deslocou para a questão de Suas operações e vontades.

- **Monotelismo e Monoenergismo:** Heresias que, buscando a unidade, afirmavam que Cristo tinha apenas uma energia (monoenergismo) ou uma vontade (monotelismo), comprometendo Sua plena humanidade.

- **Máximo o Confessor:** Foi o principal defensor da ortodoxia, argumentando que, se Cristo tinha duas naturezas, Ele deveria ter também duas vontades (divina e humana), operando em harmonia.

- **Condenação:** O Concílio de Constantinopla III (680-681 d.C.) condenou o monotelismo e o monoenergismo, afirmando o **diotelismo** – a doutrina das duas vontades de Cristo.

- **Implicações:** A doutrina das duas vontades protege a plena humanidade de Cristo, Sua obediência voluntária ao Pai e a eficácia de Sua obra redentora, garantindo que Ele nos redimiu como um homem completo.

## 1. O Cenário Pós-Concílios Anteriores: A Questão das Operações de Cristo

### 1.1. O Legado de Calcedônia e Constantinopla II

Os concílios de Calcedônia (451 d.C.) e Constantinopla II (553 d.C.) estabeleceram a doutrina das duas naturezas de Cristo (divina e humana) unidas em uma única pessoa (*hypostasis*, ὑπόστασις, ver [Strong G5287](https://www.blueletterbible.org/lexicon/g5287/tr/)), sem confusão ou separação. No entanto, a questão de como essas duas naturezas operavam e se manifestavam na única pessoa de Cristo ainda precisava ser resolvida.

### 1.2. A Busca por Unidade e o Surgimento do Monoenergismo

No século VII, o Império Bizantino enfrentava ameaças externas (persas e árabes) e divisões internas, especialmente com as igrejas miafisitas (não-calcedonianas). Buscando uma fórmula que pudesse reconciliar os miafisitas com a Igreja Imperial, o imperador Heráclio e o patriarca Sérgio de Constantinopla propuseram a doutrina do **monoenergismo**, que afirmava que Cristo possuía uma única energia (ἐνέργεια, *energeia*, ver [Léxico Grego](https://www.perseus.tufts.edu/hopper/morph?l=e%29ne%2Frgeia&la=greek)) ou operação divino-humana. A ideia era que, se houvesse uma única energia, isso implicaria uma unidade de ação que poderia ser aceitável para os miafisitas.

### 1.3. A Evolução para o Monotelismo

O monoenergismo logo evoluiu para o **monotelismo** (do grego μόνος, *monos*, "único", e θέλημα, *thelema*, ver [Léxico Grego](https://www.perseus.tufts.edu/hopper/morph?l=qe%2Flema&la=greek), "vontade"). Esta doutrina afirmava que Cristo possuía apenas uma vontade, a divina. Acreditava-se que, se houvesse duas vontades, isso implicaria duas pessoas ou uma divisão interna em Cristo, o que seria inconsistente com a unidade de Sua pessoa.

Os monotelitas argumentavam que, se Cristo tivesse uma vontade humana, ela poderia ser contrária à Sua vontade divina, o que seria impensável para o Filho de Deus. Eles viam a vontade humana como um potencial para o pecado, e, portanto, Cristo não poderia ter uma vontade humana plena.

## 2. A Reação Ortodoxa e o Concílio de Constantinopla III (680-681 d.C.)

### 2.1. Máximo o Confessor: O Defensor da Ortodoxia

O principal opositor do monotelismo foi **Máximo o Confessor**. Ele argumentou vigorosamente que, se Cristo possuía duas naturezas completas (divina e humana), então Ele deveria possuir também as propriedades essenciais de cada natureza, incluindo duas vontades (divina e humana) e duas energias (divina e humana).

Máximo insistia que a vontade é uma propriedade da natureza, não da pessoa. Se Cristo tivesse apenas uma vontade divina, Sua humanidade seria incompleta e imperfeita, e Ele não seria verdadeiramente homem. A vontade humana de Cristo, embora distinta da divina, estava em perfeita harmonia e submissão à vontade divina, sem ser absorvida ou anulada. Ele citava passagens como a oração de Jesus no Getsêmani ([Mateus 26.39](https://www.bibliaonline.com.br/ara/mt/26/39)): "Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres", como evidência de uma vontade humana distinta, mas submissa.

Máximo sofreu perseguição, tortura e exílio por sua defesa da ortodoxia, mas sua teologia foi fundamental para a condenação do monotelismo.

### 2.2. O Tomo de Agatão e a Convocação do Concílio

O Papa Agatão, em Roma, também se opôs ao monotelismo. Ele enviou uma carta ao imperador Constantino IV, conhecida como o **Tomo de Agatão**, que articulava a doutrina das duas vontades de Cristo. O imperador, buscando a paz religiosa, convocou o concílio em Constantinopla.

### 2.3. As Decisões do Concílio

O Concílio de Constantinopla III, que durou de 680 a 681 d.C., condenou formalmente o monotelismo e o monoenergismo. O concílio afirmou o **diotelismo** (do grego δίς, *dis*, "duas", e θέλημα, *thelema*, "vontade") – a doutrina das duas vontades de Cristo.

A definição do concílio declarou:

> "E nós, da mesma forma, proclamamos, de acordo com os ensinamentos dos santos Padres, que n'Ele [Cristo] há duas vontades naturais e duas energias naturais, sem divisão, sem mudança, sem separação, sem confusão, e que as duas vontades naturais não são contrárias, como os ímpios hereges afirmaram, mas que Sua vontade humana segue e não resiste ou se opõe, mas sim se submete à Sua vontade divina e onipotente."

O concílio também condenou retroativamente figuras proeminentes que haviam apoiado o monotelismo, incluindo o Papa Honório I, por sua ambiguidade e falha em combater a heresia.

## 3. Implicações Teológicas e Soteriológicas

### 3.1. Proteção da Plena Humanidade de Cristo

A afirmação das duas vontades de Cristo foi crucial para proteger a integridade de Sua plena humanidade. Se Cristo tivesse apenas uma vontade divina, Sua humanidade seria incompleta, um mero instrumento da divindade, e não uma humanidade real e completa. A vontade é uma faculdade essencial da natureza racional, e sem uma vontade humana, Cristo não seria verdadeiramente homem.

### 3.2. Implicações Soteriológicas: A Obediência de Cristo

A doutrina das duas vontades é fundamental para a soteriologia (doutrina da salvação):

- **Obediência Voluntária:** A salvação depende da obediência voluntária de Cristo ao Pai. Se Ele tivesse apenas uma vontade divina, Sua obediência não seria um ato de vontade humana livre e sacrificial, mas uma necessidade divina. A vontade humana de Cristo, submetida à divina, torna Sua obediência um exemplo e um ato redentor genuíno.

- **Identificação com a Humanidade:** Cristo, ao ter uma vontade humana, pôde verdadeiramente se identificar com a humanidade em sua luta contra o pecado e na submissão à vontade de Deus. Ele experimentou a tentação e a angústia humana, mas sem pecar ([Hebreus 4.15](https://www.bibliaonline.com.br/ara/hb/4/15)).

- **Redenção Completa:** A redenção é completa porque Cristo redimiu a humanidade em sua totalidade, incluindo a vontade humana.

### 3.3. A Unidade da Pessoa (Prosopon)

O concílio reafirmou a unidade da pessoa (*prosopon*, πρόσωπον, ver [Léxico Grego](https://www.perseus.tufts.edu/hopper/morph?l=pro%2Fswpon&la=greek)) de Cristo, enfatizando que as duas vontades e energias operam em perfeita harmonia dentro dessa única pessoa. A vontade humana de Cristo não era autônoma ou oposta à divina, mas estava em perfeita submissão e cooperação, como evidenciado em Sua vida e ministério ([João 1.14](https://www.bibliaonline.com.br/ara/jo/1/14); [Filipenses 2.6-7](https://www.bibliaonline.com.br/ara/fp/2/6-7)).

## 4. Desdobramentos Pós-Constantinopla III

O Concílio de Constantinopla III marcou o fim das grandes controvérsias cristológicas sobre a natureza e as operações de Cristo. A doutrina das duas vontades e duas energias de Cristo tornou-se parte integrante da ortodoxia cristã, consolidando a compreensão da pessoa de Cristo como plenamente Deus e plenamente homem, com todas as faculdades inerentes a cada natureza.

Embora o monotelismo tenha sido condenado, algumas comunidades isoladas persistiram, como os maronitas, que eventualmente se reconciliariam com Roma. A decisão do concílio reforçou a importância de proteger a integridade da encarnação em todos os seus aspectos, garantindo que o Cristo que nos salva é um Salvador completo e perfeito.

## Síntese teológica bíblica: Constantinopla III (680)

- O Concílio de Constantinopla III (680-681 d.C.) foi convocado para resolver a controvérsia monotelita, que afirmava que Cristo possuía apenas uma vontade (divina), negando Sua vontade humana.

- O monotelismo e o monoenergismo surgiram na tentativa de unificar as naturezas de Cristo, mas comprometiam Sua plena humanidade.

- Máximo o Confessor foi o principal defensor da ortodoxia, argumentando que, se Cristo tinha duas naturezas completas, Ele deveria ter também duas vontades (divina e humana), operando em harmonia.

- O concílio condenou o monotelismo e o monoenergismo, afirmando o **diotelismo** – a doutrina das duas vontades de Cristo, que são distintas, mas operam em perfeita submissão e cooperação.

- A doutrina das duas vontades protege a plena humanidade de Cristo, Sua obediência voluntária ao Pai e a eficácia de Sua obra redentora, garantindo que Ele nos redimiu como um homem completo.

## Perguntas frequentes

**Qual foi o principal objetivo do Concílio de Constantinopla III?**
O principal objetivo foi resolver a controvérsia monotelita, que afirmava que Cristo possuía apenas uma vontade (a divina), negando Sua vontade humana. O concílio buscou proteger a plena humanidade de Cristo e a integridade da encarnação.

**O que é monotelismo e por que foi condenado?**
Monotelismo é a doutrina que ensina que Jesus Cristo tinha apenas uma vontade (a divina), e não uma vontade humana. Foi condenado porque, ao negar a vontade humana de Cristo, comprometia Sua plena humanidade, tornando-o um homem incompleto e, consequentemente, afetando a eficácia de Sua obediência e obra redentora.

**O que significa dizer que Cristo tem 'duas vontades'?**
Significa que Jesus Cristo possui uma vontade divina plena (inerente à Sua natureza divina) e uma vontade humana plena (inerente à Sua natureza humana). Essas duas vontades operam em perfeita harmonia e submissão, com a vontade humana de Cristo sempre alinhada e obediente à Sua vontade divina, sem ser anulada ou absorvida.

**Qual o papel de Máximo o Confessor nesta controvérsia?**
Máximo o Confessor foi o principal teólogo a defender a doutrina das duas vontades de Cristo. Ele argumentou que a vontade é uma propriedade da natureza, e não da pessoa, e que a negação da vontade humana de Cristo implicaria uma humanidade incompleta. Sua defesa foi crucial para a condenação do monotelismo.

**Qual o legado do Concílio de Constantinopla III para a Igreja hoje?**
O legado de Constantinopla III é a consolidação da cristologia ortodoxa, que afirma a plena humanidade de Cristo, incluindo Sua vontade humana. Isso garante que a obediência de Cristo foi um ato genuíno de um homem completo, essencial para a nossa salvação e para o nosso exemplo de discipulado.

## Materiais recomendados para aprofundar o estudo

**1. Espiral hermenêutica – Grant R. Osborne**
Essencial para entender como a Igreja, ao longo da história, interpretou as Escrituras para formular doutrinas como a das duas vontades de Cristo. Ajuda a ver a conexão entre a exegese bíblica e as decisões conciliares.
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**2. História do cristianismo – Bruce Shelley**
Oferece um panorama acessível e detalhado do contexto histórico do Concílio de Constantinopla III, as controvérsias monotelitas e o papel de Máximo o Confessor. Fundamental para contextualizar a decisão de 680-681 d.C.
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**3. Teologia Sistemática – Wayne Grudem**
Contém um capítulo robusto sobre a doutrina de Cristo (Cristologia), abordando a encarnação, a união das duas naturezas e a importância dos concílios ecumênicos para a teologia cristã. Uma referência padrão para o estudo sistemático.
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**4. Em seus passos o que faria Jesus? – Charles M. Sheldon**
Embora não trate diretamente de Constantinopla III, este clássico devocional nos lembra que a doutrina da pessoa de Cristo, defendida nos concílios, é a base para uma vida de discipulado e obediência. A fé em um Cristo plenamente Deus e plenamente homem impacta cada decisão.
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## Bibliografia sugerida

- GONZÁLEZ, Justo L. *História do Pensamento Cristão*. Vol. 1.

- KELLY, J. N. D. *Doutrinas Centrais da Fé Cristã*.

- MÁXIMO O CONFESSOR. *Ambigua*.

- PELIKAN, Jaroslav. *The Christian Tradition: A History of the Development of Doctrine*. Vol. 1.

- AYRES, Lewis. *Nicaea and Its Legacy: An Approach to Fourth-Century Trinitarian Theology*.
